BRASÍLIA Embora a lista de retaliações contenha itens pouco expressivos na balança comercial Brasil-Estados Unidos, técnicos do governo brasileiro acreditam que ela já será suficiente para incomodar o governo norte-americano e alguns setores produtivos dos Estados Unidos, como o de cosméticos. No entanto, o governo brasileiro tem a expectativa de que a lista da chamada retaliação cruzada, que ocorrerá nas áreas de propriedade intelectual e de serviços, deve ter um impacto mais forte sobre o governo norte-americano.
Os produtos que serão objeto da retaliação cruzada ainda serão colocados em consulta pública, no final deste mês. É na retaliação cruzada que vamos incomodar de verdade. Mas não considero que a lista de bens seja frágil, avaliou um técnico do governo.
Ele lembrou que o Brasil tem limitações para fazer a retaliação em produtos, porque não pode prejudicar a indústria nacional, incluindo na lista de retaliação de produtos de bens de capital ou insumos químicos. O valor da retaliação de US$ 829 milhões é considerado pela OMC o segundo maior da história. Desse total, US$ 591 milhões representam o impacto da lista publicada ontem e os outros US$ 238 milhões serão aplicados nos setores de propriedade intelectual e serviços.
O aumento da alíquota do trigo dos Estados Unidos, de 10% para 30%, deve significar praticamente metade de todo o impacto estimado pelo governo com a lista de retaliação. As importações do grão somaram US$ 318 milhões de um total de US$ 374 milhões de produtos agrícolas que entraram no Brasil.
O diretor do Departamento Econômico do Itamaraty, Carlos Márcio Cozendey, explicou que a decisão de incluir produtos agrícolas na lista é uma tentativa de forçar setores norte-americanos, não beneficiados com o subsídio ao algodão, a pressionarem o Congresso dos Estados Unidos a retirar essa política ultrapassada.
A secretária-executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Lytha Spíndola, prega a substituição de produtos. Apenas os produtos americanos ficarão mais caros. Espera-se que ocorra um desvio de comércio para produtos de outros fornecedores, afirmou.
A substituição de produtos importados dos Estados Unidos pode criar mais espaço para a entrada de mercadorias asiáticas no mercado local. Esse é o caso, por exemplo, do segmento de tecidos e vestuário, que há anos reclama da invasão dos concorrentes chineses. Cerca de 25% do volume total comprado pelo Brasil dos itens do nosso ramo que estão na nova lista de tributação vêm dos EUA. E a nossa relação comercial com os americanos é bastante saudável, diz Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). Apoiamos a posição do governo de retaliar se não há acordo. Mas preferiríamos uma sanção positiva, como a abertura do mercado americano para os nossos produtos.
Fonte: Jornal do Commercio